Amazona

Em janeiro de 2017 participei de da residência artística São Jeronimo, proposta pelo arte-educador e fotógrafo Alexandre Sequeira, na cidade de Belém do Pará – PA. Minha primeira ida à região Norte do país. Era sensível ao meu corpo a diferença de densidade do ar, as cores, o ritmo. Em pesquisas durante a residência, descobri o significado da palavra Amazona – sem uma mama. Há relatos que dizem sobre guerreiras que amputavam uma das mamas para melhor manejar o arco e flecha. Foram guerreiras dos povos nativos que os colonizadores encontraram quando invadiram as terras que hoje configuram o a região norte do Brasil. Foram elas que deram nome ao rio, à floresta e ao estado de Amazonas. Conectada com essa energia da guerreira feminina, ilustrei a minha guerreira amazona, trazendo em seu ventre sua criação. A ilustração foi feita em nanquim sobre papel de seda e ficou em Belém, na casa de uma amiga querida, seguindo como protetora daquelas terras. Logo abaixo da imagem segue o texto relatório da residência.

9

 

TESSITURAS URBANAS. A primeira coisa que fiz ao estar no quarto que me abrigaria ao longo de um mês foi abrir as cortinas. Tenho uma certa coisa com a luz… um bom prazer em sentir o corpo despertando com o calor sobre a pele. Minha matéria não carrega consigo muita energia, por isso, ao decorrer da vida, fui adotando estratégias para potencializá-la: pedaladas, caminhadas, movimentações regulares, luz, passei a ser dessas que cedo amanhece. Uma luz parca entra pelas frestas do quarto na residência São Jerônimo, Belém. Luzes artificiais preenchem os demais aposentos durante o dia e a noite. Nos trajetos entre ambientes, a pouca amplitude.

Quando eu era criança, conta meu pai o gosto que eu tinha por correr. À sua mínima desatenção, eu zarpava! Já crescida um pouco, ele começou a me chamar “pássaro de bando”. Segundo ele, os pássaros de casal sobrevivem muito tempo ao cativeiro cantando seja as núpcias do seu amor ou, na solidão da ausência, árias lamentosas de esperança. Enquanto os de bando, peregrinos, infiéis, magricelas e de pele demarcada por suas aventuras, estes morrem de banzo se não se espaçam. Desacelerar na penumbra do tempo da casa seria um desafio. Também, e talvez principalmente, o aprisionamento em seus limites devido às tempestades diárias e os supostos perigos das ruas. Não havia escolha: essa vinda, a casa fechada, os murmúrios fantasmas, haveria de conviver com tudo isso. As portas do quarto que dão para a sacada, só as pude abrir uma vez.

A casa que me aguardava em Belém estava vazia de corpos vivos. Só corpos etéreos a percorriam, como talvez percorresse ainda este plano o meu avô. O único corpo vivo residente não estaria presente, você viajava como depois me revelou ser um hábito em seus inícios de ano. Meu corpo também, ali presente, era todo deslocamento. Já a três anos seguidos, e outros passados intercalados, inicio ciclos distante do meu espaço escolhido de permanência, Recife. É como se assim, peregrina, eu conseguisse recarregar o corpo de vivências expondo-o a outros circuitos de afetos, fortalece-lo para o que o aguarda. Mas essa foi a primeira vez que trouxe comigo um sentimento de morte.

Na primeira caminhada pelas calçadas do Ver-o-Peso, alcancei o porto que fica de frente para o mastro de um relógio de uma pequena praça. Ali, à beira da Baía do Guarujá, garças e urubus coreografam um balé integrado por sobre materiais orgânicos e inorgânicos dos resíduos urbanos dos mercados e embarcações. A garça, de branquitude esguia impecável, sobre a mesma carniça onde o urubu, com suas asas negras abertas no mais esplendoroso planar dentre os pássaros, paira. Lembrei de Recife. As margens de mangue do rio Capibaribe e seus acúmulos de cidade. Os mesmos diálogos entre os pássaros sobre a matéria limbo de vida e morte, neste permanente ciclo.

Pouco antes de chegar em Belém, tive meu primeiro contato de tempo estendido com a morte. Estive presente quando os ares do meu avô se fizeram rarefeitos, a energia do seu corpo dissipando-se. Minhas tias e eu nos demos as mãos à volta de seu leito no quarto pálido e artificial do hospital. Rezamos como quem conversa. Vi sua pele perdendo a viscosidade assim como a brutalidade de seu corpo sendo colocado dentro de um saco azul fechado num zíper sobre uma maca. Dias já haviam passado nessa espera. Fiz-me fortaleza de sustentação para minhas tias, minha avó… meu pai – para eles essa relação com a espera vinha sendo estendida por anos, talvez. Ao longo do dia escolhi acompanhar meu pai em seus trajetos, ciente da relevante, misto amorosa e destrutiva, relação entre ele e meu avô na tecitura de suas primeiras décadas. Passeamos de carro por bairros memorando afetos. Nele, uma aura algo entre nostálgico e liberto. Eu ali, só perto. Ao enfim descer da noite, entregue às horas de solidão no meu quarto e já despida de força, deparei-me finalmente com o abismo. Faz alguns anos dirijo meu olhar para estudos sobre permanência. Tenho entendido que olhar para ela é aproximar-se desses abismos muito de perto. Nessa noite construí um altar no meio do quarto, com velas e amuletos. Conversei pela primeira vez com imaginárias deusas ancestrais como quem toma fôlego numa benção pagã.

O terreno que abriga a residência São Jerônimo comporta também dois outros lares em volta de um jardim, a caminho do quintal. Sua mãe, Edna, me cumprimentou da altura do primeiro piso da casa dela, debruçada na janela. Na outra casa morava, em temporada, Ana, minha querida amiga de Recife e grande responsável por minha estada ali, no do meio jardim secreto à avenida Governador José Malcher, número 1631, bairro de Nazaré. Foi a convite de sua mãe que comecei a frequentar manhãs no jardim – um respiro solar desconecto da morte que trouxera comigo de Recife e sua sensação adensada à solidão nos aposentos da casa principal. Eventualmente Edna descia acompanhada de suas doces e idosas cadelinhas, uma negra e desajeitada labradora e uma meiga e bem tosada yorkshire. Em seu atelier, andar térreo desta casa, mostrou-me um retrato seu ilustrado por Darcy Penteado “Ele é famoso, sabe, esse artista. Mas acho feio esse desenho, por isso fica aqui embaixo. Ele desenhava todas as mulheres iguais.”

A casa que estávamos abrigou Edna por toda a vida. Era de seus pais e, à altura do falecimento deles, ela adquiriu a parte dos irmãos com o auxílio financeiro de um dos amantes que teve na juventude e de quem afetuosamente relatou. Entre picos e vales, me foi deixando fruir por sua boca uma trajetória de coragem, desde as violências domésticas sofridas com seu primeiro marido, pai de seus filhos, às dores e delícias da emancipação de ser uma mulher livre. Trouxe-me um livro e o começou a folear entusiasta “Essa publicação é de um pesquisador que conheci aqui em Belém. Ele estudava sobre o estilo de vida na Amazônia.” Encontrou sua imagem de eternizada juventude estampada naquelas páginas. Ela num aceno confiante enquanto se deslocava ágil sobre as águas com suas pranchas de sky. Corpo de ativa beleza trajando biquínis, adversa à realidade de muitas outras mulheres de sua época, principalmente numa cidade como Belém “Em um ano condenavam meus modos. No ano seguinte me imitavam, virava estilo. Fiz o que quis. Pratiquei sky aquático por anos, até mesmo grávida.” Fui entendendo que eu não estava ali conversando com uma senhora e seus pesados 80 anos, mas sim com uma mulher de plena coragem e ousadia, uma guerreira que carregava nos olhos o brilho de quem caminha à pernas firmes, com o prazer de morder uma fruta com gosto. Foi neste mesmo atelier que li o primeiro livro pescado da seleção empilhada que você deixou à porta de entrada da sala de afetos da residência São Jerônimo, logo abaixo da escada. Era um calhamaço de páginas que relatavam um modo de ver os primeiros séculos da cidade de Belém enquanto colônia, palco de explorações e disputas. Não dialoguei muito com algumas defesas e partidos tomados pelo autor nos relatos, tanto que nem guardei seu nome. Mas de uma notinha de rodapé retirei um informação que conjecturou para mim um ser de proteção durante todo o tempo que estive na casa. Uma guerreira indígena grávida com um dos seios amputados como na etimologia do nome “amazona”, empunhando um arco e flecha.

Edna me contou que talvez seja ela mesma a última geração guardiã da casa. É provável que num futuro próximo, pós sua emancipação desse plano terreno, herdeiros vários venham a disputa-la. A casa não dificilmente será vendida, seja para a ampliação da Livraria Cristã – vizinha direita da casa, que já expôs várias vezes seus interesses – seja para ser demolida ao dar lugar a um estacionamento – atendendo à demanda do edifício espigão, vizinho da esquerda.

Observar este cenário de edificações que carregam em sua arquitetura divergentes leituras de habitar espaços, todas elas lado a lado alocadas numa mesma rua – um edifício blocado espigão com seus azulejos e guarita para atender ao protecionismo enclausurado da nova burguesia, seguido da casa colonial que deflagra um suposto abandono em sua fachada a transeuntes desavisados sendo, na verdade, essa capa modesta, o escudo guardião de um tesouro de afetos, seguida de uma Livraria Cristã e seus discursos de religiosa moralidade, logo após uma imprensada vila de casinhas organizadas num corredor que adentra o quarteirão e me parece morada de idosos, estudantes e anônimos artistas, seguida agora do imponente primeiro templo protestante da Assembleia de Deus, mais poderosa igreja evangélica do país, de onde se pode ouvir os cultos performáticos dos reprimidos corpos de seus fiéis em barulhenta catarse – observar tudo isso talvez deflagre uma imanente guerra histórica travada entre formas e modos de vida. Construções antagônicas que, apesar da aparente boa convivência, não me parecem exatamente um eficiente exemplo de exercício de alteridade. Algo beira a ruínas sob os perigos furtivos das ruas, os automóveis de pressa assassina, os ônibus cegos a pedestres, a recriminação dos corpos desviantes, o ruído urbano que tudo camufla. Este cenário posto na mesma avenida Governador José Malcher, que um dia já foi conhecida como São Jerônimo – homenagem ao presidente e comandante das armas do Pará em 1848. Foram inúmeras as vezes que, ao adentrar o quarto dormitório da residência, deparei-me com uma visão de minha guerreira amazona, que se encontrava ilustrada sobre um papel de seda anexado à parede, afogando-se num vasto mar de sangue ancestral.

No bairro de Nazaré os dias escorreram líquidos sobre o asfalto que, em finais do século XIX, sufocou poços de água potável que costumava abastecer a cidade de Belém. Sob e sobre vias de memória e concreto, os veios de água doce. Dentro da casa da residência, mergulhei nas divagações verbais deixadas à porta da sala dos afetos. Entoei versos sobre um vasto mar enquanto ele mesmo despencava dos céus aos sustos dos trovões. Adotei minha máquina fotográfica como mediadora das relações que estava construindo. A fala como vibração transcendente de acesso a outras configurações de matéria energética que, ali, resistentes ou resilientes, existiam. Com a câmera ligada pendurada ao pescoço, transitei por corredores e escadas como se fosse eu mesma um corpo etéreo pelos espaços. Adentrei a sala dos afetos somente ao terceiro dia. Vi uma foto 3×4. Retrato de uma mulher sobre a mesinha do canto. Em volta, documentos de alistamentos militares de varões da família, dentre outros papéis. Li Clarice e Fernanda Grigolin, enquanto dançava com adereços encontrados na sala, para a mulher da foto 3×4. Roubei uns papéis e lápis do espaço para desenhá-la quando me atravessou o desejo de senti-la, matéria, em extensão do meu corpo. Encontrei cartas secretas em compartimentos de empoeirado esquecimento. Sentei na cadeira-trono da sala dos afetos e meditei, como jamais houvera feito antes. Foi quando minha câmera travou seguidas vezes e as luzes da sala entraram em curto e queimaram que entendi: havia terminado o tempo de diálogos. Peço perdão se, na minha ansiosa busca, caí em ofensa.

Cheguei de Recife à residência São Jerônimo, Belém, numa madrugada, entre os dias 26 e 27 de dezembro, 2016. Minha primeira residência artística: barco no mar a deriva. Eu não sabia ao certo se era esperada como artista ou se minha estadia na casa havia sido um afetivo e conveniente acordo entre você e Ana. Talvez ambos fosse. A energia especulativa talvez aí se desse porque, em tempos, eu ainda não te conhecia. Não obtive resposta do email de apresentação que te enviara antes da viagem. Mas eu tinha em mim um chamado e aprendi, faz tempo, a ouvir atenta as vozes interiores. Eu iria de qualquer forma. Mesmo que não me acolhesse essa casa e não me amparasse um claro propósito.

Ana abriu, gentilmente, as grades de entrada ajudando-me com as malas. Apresentou-me toda a casa, hall de entrada, sala dos afetos, seleção de livros ao pé da escada, os controles de luz, o segundo piso, sala, cozinha, área de serviço, banheiro, teu quarto, a biblioteca. O quarto dormitório de chão de estrela em mosaico de madeira acolheu meu cansaço. Ainda assim, coloquei rapidamente as roupas na arara, computador sobre a mesa, livros encostados no parapeito da janela. Abri as cortinas. Foi ao amanhecer que aproximei-me pela primeira vez da porta que dava para a sacada. Senti a luz parca, cintilando nos vitrais, despertar morna o meu corpo nu. Assim seriam todas as manhãs, à espera do tempo, ouvido atento aos murmúrios, uma solitária caminhada por incertezas que me atingiam como facadas a barriga. Minhas mãos sujas de sangue. Fio metálico largado no chão. Sensação aterrorizante da eminente morte da minha própria criação. Mas era, talvez, exatamente isso que eu havia ido fazer ali: olhar abismos. Entre picos e vales, os estados de permanência atravessam abismos. A vida, matéria nutritiva que suculenta, alimenta, desatenta, apodrece. Composto orgânico, alimento de urubus e garças, sangue misturando-se aos veios de uma água turva e doce. A lama, nem rio, nem terra, que se guarda e aguarda. Do meu pescoço desprendeu-se um colar de algas rubras perdido na profania das ruidosas festas sacropagãs, que ao mesmo tempo camuflam e ritualizam guerras. Com olhos abertos num campo de visão ampliado percebo, encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações, a dos vivos e a dos mortos. Permanência é a tessitura que as costura.

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Relatório sobre Residência Artística São Jerônimo, na casa do artista, fotógrafo e educador Alexandre Sequeira.

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